Ana Lídia Silva Teixeira
Maria Emília Loyola
Martha Maria Prata Linhares
Todos nós temos lembranças das festas escolares que participávamos em criança. Talvez as festas juninas dentre todas sejam as mais lembradas e festejadas, pois estavam sempre presentes nos calendários escolares. Será que alguma vez já paramos para refletir como as festas escolares podem retratar os princípios educacionais de uma escola, o que ela é , o que ela pretende, o seu currículo ?
Pretendemos refletir como alunos e professores juntamente com o restante da comunidade escolar podem construir novas aprendizagens e vivenciar o currículo através das festas escolares.
A Escola Criativa de Uberaba é uma instituição particular de educação e ensino que trabalha com Educação Infantil e Ensino Fundamental (1ª a 8ª série). Fundada em 1988, sua criação foi motivada pelo desejo de fazer do espaço escolar um local de aprendizagem prazerosa tanto para os alunos quanto para seus profissionais.
Durante o processo de construção da Criativa discutíamos o quanto ir para a escola estava associado a “um mal necessário” e para muitos professores “um fardo a ser suportado”. Refletíamos muito se não haveria uma outra forma de ensinar e aprender que pudesse ser tão séria e eficaz quanto envolvente e prazerosa.
Desde o início, a proposta pedagógica da Criativa foi sendo construída por seu corpo docente que se reunia semanalmente para estudar, e assim poder, em grupo, descobrir como articular as concepções de cada um e os princípios da escola com fundamentação teórica.
Dentre os muitos assuntos estudados, um dos que causou mais polêmica no grupo foi com relação ao que se considerava curricular e extra curricular. Todos os professores (incluindo a diretora, coordenadora e auxiliares de turma, pois todos participavam destes encontros pedagógicos) traziam como experiência escolar – e, portanto como concepção particular – que curricular é tudo o que está no programa e que se ensina formalmente e extra curricular é o que a escola realiza mas que nada tem a ver com o programa de ensino.
As discussões se estenderam por muito tempo, houve momentos em que o grupo ora avançava nas discussões, ora retrocedia temendo estar descaracterizando o ensino por ampliar e diversificar demais o currículo da escola.
Neste percurso o grupo foi concluindo que currículo seria algo como escreveu Moreira (1997, p.15), “um todo significativo, com um texto, como um instrumento privilegiado de construção de identidade e subjetividades” e que muito se aprende e se ensina dentro e fora da sala de aula, nas situações formais e não formais, através da ação do professor e nas relações entre os alunos pois todo diálogo é parte integrante do processo de aprender.
A equipe da Escola Criativa foi crescendo em idéias e ações e sempre que planejávamos uma reunião de pais, um evento cultural ou uma festividade na escola, nos perguntávamos além de como e o quê fazer, o por quê de tais ações. Segundo Veiga-Neto (apud Moreira, 1997, p.60): “De um modo geral, a escola, mais especialmente, a sala de aula são tratadas como uma “caixa-preta”: interessam as entradas e as saídas e não propriamente o que acontece dentro da maquinaria escolar.”
Crescia a consciência de que havia uma articulação entre os princípios norteadores do trabalho e os conteúdos, e a organização de uma festa junina, por exemplo. O planejamento de uma aula ou de um encontro entre família e escola têm como sustentação os mesmos princípios: saber ouvir para aprender com o outro, ampliar a noção de si e do outro, enriquecer-se com informações e fazer uso delas, ter espaço para a livre expressão, ser solidário…
Cientes do valor da integração de todo e qualquer acontecimento escolar o grupo passou a considerar curricular tudo o que estivesse articulado com os princípios da escola. Ao planejar o roteiro da festa, como receber os alunos e pais, que atividades desenvolver, como animar e envolver a todos, tudo isso desenvolvia no professor iniciativa, liderança (pois cada atividade tinha um coordenador), senso de estética, cooperação no trabalho em grupo além de sentir uma forte aproximação entre ele, o profissional, e os pais dos alunos, e a vivência dos princípios norteadores da escola em diferentes ambientes de aprendizagem.
A Páscoa para a equipe da escola tem o significado de renovação. Por isso na Festa da Páscoa organizamos oficinas onde participam pais, crianças e professores para viverem momentos de transformação utilizando sucata, argila, revistas, jornais, madeira, barbantes, tecidos e outros materiais. Com isso desenvolvemos a criatividade, a comunicação, a integração das diferenças, o trabalho em grupo. Com essas vivências podemos nos alimentar da energia da transformação, simbolizada pela Páscoa, que auxilia nossas próprias transformações ampliando sempre a dimensão do nosso trabalho.
Os profissionais da escola se dividem em equipes para receber a todos, animar, coordenar as oficinas de criatividade e expressão, cuidar do lanche e reorganizar o ambiente. Na Festa Junina buscamos resgatar a história da nossa gente, como as tradições foram criadas ampliando a consciência de que cada região tem sua marca singular, seus ritos, seu jeito de fazer história. Cada cultura só se explica por ela mesma e acreditamos que valorizando os nossos traços culturais e apontando para o fato de que existem muitas outras identidades culturais podemos despertar a consciência da diversidade que existe. O respeito a diferença passa pelo apreço que se tem por si.
Também aqui há a participação conjunta de todos, divididos em equipes e participando das danças típicas junto aos alunos. A Festa da Primavera é um outro espaço para a ação solidária e participativa. Algumas vezes foi planejado com jogos esportivos ou recreativos desenvolvendo a ludicidade, um dos pricípios da Criativa. Nos últimos anos, a Festa da Primavera tem sido uma grande oficina ‘batizada’ de Cria-flor onde o tema central é a criação de flores usando os mais variados materiais. Mais uma vez pais, avós, crianças, adolescentes, professores e toda a comunidade escolar trabalham juntos descobrindo e desenvolvendo habilidades artísticas e a capacidade de expressão.
Percebemos com esses relatos o quanto as festas por serem consideradas situações informais, propiciam momentos de descontração, abrindo espaço para a expressão de vivências criativas, muitas vezes adormecidas nos profissionais. Desejam que os alunos criem, porém a sua própria capacidade criadora não está desperta. Nestes espaços festivos, professores e alunos se co-educam e se descobrem como seres com capacidade ilimitada de criação: “Tudo o que em educação se relacione com as ações humanas levará o selo da expressividade da pessoa que age, isto é, seu selo.
Agimos de acordo com o que somos e naquilo que fazemos é possível identificar o que somos”. (Sacristán,1999, p.31) Não apenas o currículo “concebido e interpretado como um todo significativo”(Moreira,1997,p.15), mas também o ser humano é um todo original e significativo capaz de se relacionar e deixar marcas da sua criatividade. Temos aprendido muito com estas festas e pretendemos sempre ter os olhos voltados para as tantas situações que possam se constituir em espaços para se aprender e ensinar e constatar que nosso trabalho vai muito além da sala de aula
As festas são as mesmas mas nunca são iguais. Em cada uma as relações se renovam, se diversificam e se ampliam. A cada momento de criação em grupo há a possibilidade de se “olhar de uma maneira nova uma realidade” (Rios.2002,157).
BIBLIOGRAFIA
MOREIRA, Antonio Flávio B.(org). Currículo: Questões Atuais.Campinas: Papirus,1997.
RIOS, Terezinha Azeredo. Competência ou Competências- o novo e o original na formação de professores.IN: Didática e Práticas de Ensino: interfaces com diferentes saberes e lugares formativos.R.J.: DP&A, 2002.
SACRISTÁN, J. Gimeno. Poderes instáveis em |educação. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
VEIGA-NETO, Alfredo. IN: Moreira(org). Currículo: Questões Atuais. Campinas:Papirus, 1997








